Alckmin e a segurança de São Paulo
Confiram o vídeo sobre Geraldo Alckmin e seu governo no estado de São Paulo e tirem suas próprias conclusões.
Confiram o vídeo sobre Geraldo Alckmin e seu governo no estado de São Paulo e tirem suas próprias conclusões.
por Fernando Canzian
A notícia mais representativa sobre o ponto a que chegamos no Brasil talvez seja a que envolve um rapaz negro e pobre de Goiás com um nome típico da mistureba nacional: Maxwell Messias, 20.
Maxwell foi detido na semana passada acusado de furtar uma casa. Antes que fosse julgado, foi solto pelo poder do juiz Adegmar José Ferreira, da 10a Vara Criminal de Goiânia. Em sua decisão, Adegmar levou em conta que era injusto e pouco razoável manter Maxwell preso "enquanto políticos e administradores públicos desviam fortunas dos cofres públicos e sequer passam diante de uma delegacia".
O juiz disse ter ponderado sobre a condição de jovem, pobre, desempregado e negro de Maxwell para colocá-lo na rua. Entendeu que a prisão era "absurda", considerando "os parâmetros da Justiça brasileira, principalmente o tratamento dispensado aos crimes administrativos e em determinados setores da política".
Recordando o tamanho dos escândalos e a quantidade de dinheiro neles girada nos últimos dois anos é emocionalmente impossível discordar da decisão do magistrado. Só os reais para a compra do tal dossiê contra os tucanos envolvendo a máfia das sanguessugas somam R$ 1,7 milhão. Em mensalões, caixa-dois, propinas e Land Rover há outras dezenas de milhões.
Assim como Maxwell, a imensa maioria envolvida nesses escândalos também não está presa ou, pior, foi reeleita como representante do povo no Congresso Nacional. Sem falar em outros autores de desvios ainda mais graúdos que voltaram "renovados" à cena política, agora legitimados por votações recordes.
O caso Maxwell é pequenino e pontual, mas coloca a discussão sobre a validade e a aplicação das leis no Brasil em outro patamar. Diante de crimes maiores e longe de serem punidos, o Poder Judiciário jogou pela janela sua prerrogativa de recolher provas e de julgar conforme a legislação vigente.
É difícil não concordar com o juiz, mas para isso deve-se também admitir francamente a completa falência das regras legais vigentes, base de qualquer sociedade civilizada. Devemos assumir racionalmente que um crime menor não deve ser punido já que está plenamente justificado por outros ainda maiores.
É isso e esperar que Maxwell tenha tomado um susto que o afaste de novos crimes no futuro. Essa deve ter sido a grande aposta do juiz, já que não se pode esperar o mesmo dos "peixes graúdos" que contribuíram para livrar a barra do rapaz.
Fernando Canzian, 39, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Escreve semanalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.
fonte<http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult1470u7.shtml>
por Luiz Caversan
O que mais a chamava a atenção eram os pés.
Sujos, muito sujos.
A cena toda estava fora da rotina do pedaço por onde sou obrigado a passar todos os dias.
Em baixo da marquise daquela estação do metrô instalou-se desde sempre uma turma de mendigos que assedia os motoristas no cruzamento. E onde normalmente encontra-se seu "dormitório", agora havia um cercadinho feito pelos seguranças do metrô, meio que protegendo um cadáver coberto por plástico preto. Tão preto quanto a sujeira dos pés que se projetavam para fora daquele pacote sinistro.
São Paulo é uma cidade farta de moradores de rua, e dentre esses há várias categorias: os esquizofrênicos que não vivem em nenhum outro lugar a não ser dentro de suas próprias e inescrutáveis mentes, outros doentes mentais que não conseguem estabelecer nenhum contato "razoável" com a sociedade, os desacorçoados de uma vida que de tão ingrata acabou lhes impondo a rua como o único local em que possam permanecer. E os bebuns.
Os meus vizinhos são bebuns, uma meia dúzia, todos homens, daqueles que um dia tiveram uma vida que lhes pregou alguma peça e hoje são apenas andrajos que se movimentam entre os carros e atrapalham o trânsito das pessoas na calçada.
O que morreu foi o "Zé". Apenas, Zé, informam seus companheiros de infortúnio. De onde veio, tinha família, documentos, estava doente?
Ninguém sabe...
Morreu de quê?
De pinga, diz um deles.
Não foi de pinga não.
Pode até ter sido, mas não foi.
Foi de esquina, de frio, de fome, de sujeira, de tristeza, de náusea, de solidão, de saudades, de vergonha, de desespero, de mágoa, de cansaço e de tudo o mais que certamente acomete um ser humano que chega àquele limite, de ter na pinga o único e desesperado conforto para as noites intermináveis, frias e nojentas sob uma marquise.
O homem morreu aqui pertinho, embaixo da marquise do metrô, ao lado do minhocão, onde certamente morrerão outros, aquele da bengala, talvez o barbudo, quem sabe o baixinho de cabelos brancos...quem se importa?
Será apenas outro Zé, daqueles que jamais constarão das pesquisas de intenção de voto.
Luiz Caversan, 50, é jornalista. Foi repórter especial e diretor da Sucursal do Rio da Folha. Escreve crônicas sobre cultura, política e comportamento aos sábados para a Folha Online.
fonte<http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult513u256.shtml>
por Áureo Augusto
Mas nesse imbróglio em que vivemos mesmo as empresas tendem a nos tratar como se elas fossem serviços públicos. Que por ser público é de todos, i. é, não é de ninguém. Muitos defendem o socialismo não porque sejam socialistas e sim porque são incompetentes e o que mais querem é um sistema onde tudo seja de todos, todas as decisões sejam de todos e ninguém assuma a responsabilidade por nada. Quando no verdadeiro socialismo espera-se que todos assumam a responsabilidade por tudo e alguns, ocupando determinados cargos, respondam efetivamente por eles, sem culpar terceiros.
por Gilberto Dimenstein
Pode-se não gostar de Antonio Carlos Magalhães, por seus métodos truculentos do pior coronelismo e por sua presunção de se apresentar como paladino da moralidade --a surra que ele acaba de levar é resultado, em parte, de sua soberba e do envelhecimento de sua oligarquia.
Sua derrota significa, em minha opinião, uma oxigenação para a política baiana. Mas seria intelectualmente desonesto deixar de reconhecer um fato irrefutável: sem ACM, os programas de renda mínima, ou seja, o Bolsa Família não teriam ido tão longe.
Pergunte-se a qualquer pessoa que tenha acompanhado os bastidores dos programas sociais brasileiros e ninguém deixará de reconhecer que, graças a ACM, o bolsa-escola deixou de ser uma experiência piloto, iniciada em Brasília e Campinas, para se transformar numa política pública nacional.
Isso porque o senador liderou o movimento, no Congresso, para a criação de um fundo contra a pobreza. Desse fundo, surgiu o financiamento para o bolsa-escola, do Ministério da Educação, e, em menor escala, para o cartão-alimentação, do Ministério da Saúde; ambos, foram a base do Bolsa Família, que hoje chega a 11 milhões de famílias, indiretamente a cerca de 40 milhões de pessoas.
O que Lula fez foi apenas ampliar e melhorar o que já estava aí, o que lhe garantiu boa parte de seu prestígio, especialmente no Nordeste e, ironicamente, o ajudou a derrotar ACM --aliás, seu cabo eleitoral na eleição passada.
Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às terças-feiras.
fonte<http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult508u324.shtml>
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